A História de Rafael - Maria de Fátima Mota Zampieri
Rafael chegou ao pronto atendimento com dificuldade respiratória e uma tosse muito seca, sinais da fatídica doença do século, a COVID 19. O exame na triagem atestava a positividade. Estava como uma máscara de pano feita por sua mãe. Quando adentrou no local, percebeu que algumas pessoas se afastaram com os rostos assustados. Os recepcionistas arrumaram suas máscaras e a técnica de enfermagem correu para lavar a mão e colocar a luva rapidamente.
Logo, ele estava sobre uma maca e dois profissionais de saúde se postaram ao seu lado com suas roupas azuis e estetoscópios no pescoço, todos paramentados com gorros, óculos, luvas, um deles com uma máscara parecida com o bico da Arara. Rafael lembrou do sítio de sua vó e das ararás azuis, gritando frenéticas entre os galhos. A enfermeira colocou o termômetro depois de uma desinfecção rápida com álcool.
Subitamente seus pensamentos foram entrecortados com a cena que se apresentava ao lado do corredor, onde a maca passava. Macas e camas, separadas por finas paredes de fórmicas, com pacientes gemendo e presos a mil aparelhos. Sons de batimentos, de gases, oriundos de sondas que brotavam do nariz, luzes muitas luzes, pulsando nos aparelhos.
Seriam os batimentos cardíacos, o valor da pressão arterial; talvez, a quantidade de oxigênio que recebiam ou a saturação de oxigênio e gás carbônico - pensou. Estes termos já lhe eram familiares, nos últimos tempos, em função da atividade que estava desempenhando. E o barulho.... Tum ta . Pin Pin Ischi Isschi Tum Ta Piiimmmmm. Tum Ta Xiiiii Orrrr
Funcionários meios desnorteados, correndo de um lado para outro com carrinhos de emergência, demonstrando cansaço. Suas testas suavam muito e alguns apresentavam olheiras profundas, encobertos pelas máscaras.
Ponderou!!!!- Meu Deus, porque vim parar aqui? Estou bem, apenas com uma dificuldade respiratória. Vou morrer???? Não, todos estão com material de proteção. Muito diferente do que havia visto e ouvido nos noticiários, uma realidade distante dos hospitais públicos brasileiros, que denunciavam a falta de equipamentos de proteção (EPIS) para os profissionais, falta de recursos humanos, insumos e recursos materiais, em função do descaso dos governantes para com a saúde pública brasileira. Estava em um Hospital Universitário, bem gerenciado, pelo jeito, por uma sorte do destino.
De repente, Rafael notou que muitos funcionários correram para um canto da unidade com paredes de vidro. Alguns passavam com medicamentos, outros com cubas, alguém trazia um soro numa bandeja. Uma bolsa de sangue na mão de uma técnica de enfermagem. Uma movimentação enorme. Estavam tentando salvar a vida de um homem de cabelos brancos. Ouviu no burburinho que havia ocorrido uma parada respiratória e tentavam entubar o homem.
Rafael percebeu que o médico tentou introduzir o tubo, garganta abaixo do pobre homem, mas logo tudo cessou repentinamente. Só uma enfermeira ficou olhando tristemente, aquele senhor que no seu último suspiro havia agarrado a mão dela num pedido de socorro.
Mais uma morte para se juntar às centenas naquele dia em todo o mundo, mais um ser humano que feneceu longe de seus entes queridos - refletiu, sentindo um imenso pavor.
Os profissionais, um a um, saíram cabisbaixos, impotentes, tristes, consternados de dor diante da fatalidade e exaustos pela sobrecarga de trabalho, resultante dos plantões dobrados, 48 horas de trabalho ininterrupto, pela insuficiência de recursos humanos. Além disso, a solidão e angústia por ficarem distantes e isolados de seus filhos e familiares para poder protegê-los. Quando isto teria fim? - questionavam, sem nem mesmo se darem conta do que diziam.
Rafael ficou assustado e desesperado. Além da falta de ar, sentiu um aperto no peito, uma angústia, uma ansiedade e muito medo. Um arrepio atravessou o corpo dele e pensou com seus botões: Nossa!! O que vai ser de mim? Não imaginava que a situação era assim. Será que eu vou morrer? Minha garganta está cada vez mais seca, o ar parece rasgar meus pulmões, todo o meu peito arde. Estou ficando sufocado. Alguém me ajuda, por favor!!!
Ao longe, uma voz doce, calma e tranquila, de uma técnica de enfermagem ou enfermeira, sei lá, murmurava: calma, estou te levando para enfermaria. Vão precisar de sedar, para tu poderes respirar melhor. Rafael olhou por trás da máscara e de forma imperceptível conseguiu ver os lindos olhos verdes, tranquilos e suaves. Sentiu tranquilidade. Não viu e ouviu mais nada.
Lembrou-se de subir nas árvores e correr atrás das vacas e cabras na infância. Das orações em família, das danceterias e da conversa jogada fora com os amigos. Também de lembrou de seu pai, bebendo chimarrão na varanda, depois de um árduo dia de trabalho. Do carinho da namorada. Dos conselhos de sua mãe, dados com toda a ternura e amor, das corridas de motocicleta. Tudo parecia um sonho distante em sua mente.
Rafael tinha 28 anos, era extremamente comunicativo e tinha um corpo atlético. Não era feio, nem bonito. Normal. Muito alegre, adorava contar piadas, dançar nas baladas e tinha paixão por sua motocicleta. Gaúcho de nascimento, havia se mudado para São Paulo com os pais. Trabalhava de mecânico e fazia um curso universitário de tecnólogo em manutenção automotiva na Escola Técnica Federal. Filho de um agricultor que depois passou a trabalhar como caminhoneiro, em função da intoxicação por agrotóxico, não tinha aderência com a agricultura, o que deixava seus pais inconformados, já que haviam sonhado que ele, como filho mais velho, assumiria a propriedade.
A vida de Rafael era muito tranquila, gastava seu tempo entre a oficina, estudos, o futebol e as danceterias. Era fanático pelo Grêmio. Adorava dançar e curtir a noite. Não demonstrava muita responsabilidade, era bonachão e adorava os pais.
Nos últimos dias, estava intrigado com as últimas notícias nas redes sociais que divulgavam a presença de vírus na China que estava tirando a vida, sobretudo dos idosos. Tudo muito longe.
- Coisas do oriente. Eles são meio exóticos - pensava Rafael.
No entanto, a situação chamou mais a atenção de Rafael e familiares quando tiveram conhecimento de que alguns parentes da Itália haviam contraido a doença e que não era apenas uma gripe como as redes sociais apontavam e também o Fantástico havia divulgado inicialmente. O coranavírus, um novo vírus, se alastrava como pólvora e tinha pegado todos desprevenidos. Estava matando muita gente. Eram os últimos relatos que circulavam na mídia. O coração de Rafael ficou apertado e triste, mas como todo o italiano que chora e ri ao mesmo tempo, a tristeza deu logo lugar à alegria ao escutar a voz de sua namorada. Contudo, uma semana depois, todos os jornais do mundo divulgavam o verdadeiro caos que assolava a Itália e o mundo.
Centenas de mortes. Escolas, indústrias e comércios fechados. Isolamento social era a palavra de ordem. Paulatinamente, outros países sentiram na pele o mesmo problema. Espanha, Suécia, França, Holanda. Até o Reino Unido e Estados Unidos da América, com seus governantes incrédulos e preservadores em primeiro lugar da economia, tiveram que se render ao inimigo silencioso e perspicaz que, parecendo inocente, colocava de joelhos os grandes dirigentes e estrategistas.
Inicialmente atingiu os ricos, os famosos, os turistas que chegavam de viagem nos aviões e nos cruzeiros, depois se estendeu a toda sociedade, chegando aos mais vulneráveis, pobres, idosos, indígenas, sem teto e doentes.
Um a um, todos os países do mundo foram surpreendidos pelo avanço da enfermidade, dando origem à pandemia. Os sistemas de saúde entraram em colapso. UTIS superlotaram. Campos de futebol e centros culturais se transformaram em hospitais de campanha.
Na Itália, centenas de mortos foram transportados em caminhões de guerra enfileirados, silenciosos e enigmáticos, sem que os familiares pudessem se despedir dos entes queridos; outros foram cremados, caixões enchiam as igrejas. Na Espanha, corpos inertes foram depositados sobre pistas de esqui por falta de necrotérios até que as famílias pudessem resgatá-los, mas ninguém poderia vivenciar os ritos de luto ou participar de velórios para a proteção social. No equador, caixões foram deixados nas ruas ou foram enterrados em terrenos baldios pela superlotação dos necrotérios. Caos. Crise. Crise nas funerárias.
O papa deu a benção de Deus e pediu proteção ao mundo, da praça de São Pedro. Uma cena chocante. A praça vazia, o silêncio fúnebre, quebrado pelo ruído das gotas de chuva que escoriam pelas calçadas. Um homem frágil, encurvado, claudicante, forte e vulnerável a um só tempo, com o peso da dor em suas costas, implorando compaixão aos céus. Ausência de fiéis fervorosos que normalmente lá compareciam e sempre acompanhavam os ritos da quaresma. No mundo, uma união virtual, uma comoção social, uma rede de irmandade e fraternidade, uma onda de fé e esperança e de solidariedade passou a envolver as pessoas. Os sem tetos foram acolhidos em salões paroquiais, distribuídos em alguns estacionamentos, em abrigos e até a sede do festival de cinema de Cannes, onde atrizes e atores desfilam sobre o tapete vermelho, serviu como guarida para eles. Os jovens atuaram como voluntários para levar mantimentos para os mais vulneráveis. Associações e ONGs passam a se preocupar com os mais pobres. Os asilos foram protegidos e visitas foram controladas para proteção do grupo de risco, os idosos. Os profissionais de saúde eram aplaudidos das sacadas dos apartamentos e das varandas das casas.
Campeonatos esportivos e grandes eventos culturais foram cancelados. A olimpíada no Japão foi suspensa. Museus fechados. Lojas com tapumes para evitar saques.
Corrida para compra de respiradores e equipamentos de proteção, gerando conflitos internacionais. Sem vacina e sem tratamento, os profissionais testavam medicamentos aleatórios, esperando que o corpo reagisse, e aplaudiam quando alguém vencia o inimigo invisível, numa guerra em que o ser humano era o vencido e não o vencedor. A única saída, o isolamento social, evitando as aglomerações. A prisão domiciliar de homens de bem para evitar o contágio e o descontrole dos casos.
Uma outra crise. Pânico mundial A crise econômica. Bolsas em queda. Dólar em alta. Recessão e desemprego. Milhares de desempregados. Fome. Briga para trabalhar. Caos social, caos nos serviços de saúde, caos econômico e caos político. Incredulidade, desconfiança, depreciação, desdenho e menosprezo do problema, bem como, negligência deixaram o vírus se alastrar.
Para espantar a dor, o desânimo, o pânico, a solidão e a depressão, os artistas foram para sacadas e cantaram opera, MPB, samba em uníssono com a população em todos os cantos do mundo e, sobretudo, na Itália e no Brasil. O acesso a shows, às atividades físicas, aos teatros, filmes e espetáculos virtuais foram facilitados de forma gratuita pelas redes sociais e mídia.
A boa nova. Num paradoxo ao quadro, com a indústria e trabalhadores parados, as águas ficaram mais límpidas, o céu mais azul e a natureza respirou aliviada, sem poluição.
No Brasil, o caos ainda se configurava maior. Divergências entre os políticos, empresários e mídia, uns defendendo a economia e outros buscando preservar a vida. Na prática, apenas jogo de poderes do legislativo, executivo e judiciário entre si e no seu próprio poder, em meio aos holofotes. Na pauta, o isolamento social. De um dia para outro, todos pararam após a adoção das medidas restritivas e permaneceram em suas casas para evitar o colapso dos serviços. Praias vazias. Avenidas livres. Ausência de trânsito. Somaram-se às mortes pelo Corona, as mortes por sarampo, dengue, tuberculose, malária e gripe H1N1. O melhor sistema de saúde, o Sistema Único de Saúde, nocauteado pelo descaso das autoridades e falta de valorização, investimento, controle e estruturação do setor e de medidas básicas de saúde pública. Resultado: pessoas morrendo por doenças já erradicadas. As pessoas se viram sozinhas, sem um líder para conduzi-las e passaram a tomar suas próprias decisões. Teriam chances os confinados ao terem contato com o vírus? Dúvida atroz. Uma corrida contra o tempo. Ninguém queria pagar para ver. Poucos se arriscavam.
Campanhas de solidariedade não faltaram em prol dos desempregados, dos idosos, dos favelados e dos pobres. Os barracões do samba se abriram para a confecção de máscaras e fábricas transformaram sua linha de montagem para fabricar respiradores. Surgiram hospitais de campanha nos estádios de futebol, em parques, em pavilhões de exposições e centro de eventos. Universidades públicas e instituições de pesquisa se mobilizaram para criar projetos de respiradores, para decifrar genomas, para analisar exames, para criar formas de testar o vírus, para fazer estatísticas e analisar medicamentos. Consultas pela Internet. Técnicos de informática criaram programas para melhorar estatísticas, identificar a presença do vírus em determinada região, e criaram meios para facilitar a comunicação entre os diferentes níveis de complexidade de saúde e serviços de saúde públicos e privados. Que dádiva!!!
Todos dias eram computados mais casos e mais óbitos, sem data para finalizar este surto, sem vacina, sem nenhuma luz no final do túnel. Talvez a solução de menor custo fosse testar todos, em massa, todos usarem máscaras, liberar os imunes para o trabalho, monitorar os doentes, salvaguardar os vulneráveis e impedir a entrada de novos casos por via terrestre e aérea até a produção das vacinas - pensaram cientistas e anônimos da sociedade.
Rafael se viu envolvido por todas as questões e sua vida transformou-se do dia para a noite. Com o isolamento social e necessidade de proteger seu pai, com 68 anos e diabético, assumiu o lugar dele, passando a ser caminhoneiro.
Saía todos os dias às quatro horas da madrugada do interior de São Paulo para transportar os hortifrutigranjeiros para todo o Estado, levando o produto à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, além de fazer alguns transportes diretos aos hospitais da grande São Paulo. Enfrentou grandes dificuldades: o risco de roubos, as estradas esburacadas e descuidadas e sem sinalização; a solidão, o medo, a saudade de casa, da namorada e dos pais; a falta se segurança, de iluminação e de policiamento nas estradas e os acidentes.
Passou até fome, pois com a paralização dos serviços em todo o país, os restaurantes na margem da BRs permaneceram todos fechados. Fez grandes amigos. Como não havia borracharias e oficinas abertas ao longo do caminho, socorreu muitos caminhoneiros, fazendo pequenos consertos. Passou a ser conhecido por todos pela disponibilidade e bom humor naquele momento difícil. Pelo rádio amador, acoplado no caminhão, contava piadas, protegia os amigos dos perigos e buscava socorro quando necessário.
A aparente tranquilidade nas estradas dava lugar à indignação dos caminhoneiros que gritava forte no asfalto:
- Temos dinheiro e não temos onde comprar comida. Não temos onde fazer a higiene. Não temos nenhuma orientação sobre como nos proteger desta nova doença. Estamos sozinhos neste barco. Depois eles vêm pedir votos - comentavam os caminhoneiros.
Rafael chegou a dar um depoimento numa rede de comunicação importante do país.
- Nós levamos o alimento para a casa dos paulistanos, estamos levando insumos, medicamento e alimentos para os hospitais. Estamos movimentando a economia deste país, protegendo os empregos de muita gente. Precisamos ser vistos e ouvidos. Precisamos de apoio. Precisamos nos alimentar, ter lugar para dormir e para fazer nossa higiene. Se quebramos o caminhão ou fura o pneu, temos que parar. Não temos apoio logístico, transportamos material perecível, e sem ele a população não vai suportar. Somos profissionais essenciais, como são os profissionais de saúde que combatem doenças, os cientistas das Universidades e órgãos de pesquisa em saúde que buscam compreender a história da doença, inventar respiradores/testes e produzir vacinas, como os garis e lixeiros que cuidam da limpeza, o pessoal da imprensa que busca informar, os vendedores de alimentos e os policiais que primam pela segurança. Temos valor neste país. Somos todos iguais.
Nossa!!! A oratória dele convenceu a todos os telespectadores. Redes de solidariedade foram criadas e pessoas da comunidade passaram a distribuir marmitas e quites de higiene nas estradas. Os caminhoneiros sentiram-se representados e orgulhosos de sua profissão. Convencidos pela pressão, governantes curvaram-se e abriram alguns restaurantes, mas não muniram os caminhoneiros de material de proteção.
O país não estava preparado para assumir uma pandemia destas proporções. Não tinha máscaras, gorros, aventais e luvas em estoque, nem profissionais de saúde capacitados para atender o trivial, imagina para atender toda esta demanda. A indústria brasileira não tinha “know how” para produzir estes materiais e nem para fabricar os respiradores, fundamentais para tocar as UTIS e era dependente da China e outros países para adquirir tudo. Mesmo estando decretado o estado de calamidade pública, que possibilitava a liberação de recursos financeiros e a compra sem licitações, ainda se esbarrava na burocracia e na falta de vontade política e de liderança dos gestores federais estaduais e municipais para equacionar o problema de saúde, social e econômico.
Consciente de toda a situação, Rafael tocava a sua vida. Todos os dias estava na estrada, acordava com os animais e dividia seu tempo no CEASA de São Paulo e hospitais. O trânsito não era problema. Estava tudo livre. Praticamente só caminhões que transitavam, inclusive pelo centro da cidade, para sua incredulidade. O sol era escaldante. Tempo de seca e calor. Carregava os alimentos nos sítios e fazendas. Descarregava no Ceasa. Conferia os produtos. Descartava os danificados e registrava. Recebia os pagamentos do frete. Carregava alimentos para os hospitais e para a unidade de alimentação e nutrição (UAN), do Hospital Universitário.
Ao retornar para casa, ficava em um quarto em sua oficina para não ter contato com os pais, mas sempre fazia um rancho para eles e jogava beijos de longe.
Rafael estava muito feliz, sentindo-se importante e útil e não esmorecia diante das dificuldades. Contudo, começou a sentir-se fraco, com dor no corpo e apresentou tosse seca. Inicialmente, não deu muita importância, mas ao chegar ao Hospital Universitário, uma das técnicas percebeu seus sintomas, sobretudo a falta de ar e o encaminhou para a internação.
Tudo foi muito rápido e nem teve tempo para pensar. Pediram seus documentos, o isolaram e comunicaram a sua família.
Rafael só recordava daqueles olhos verdes. Lembranças do agito dos encontros com os caminhoneiros. Todos aplaudindo depois da entrevista para emissora. Seus pais na varanda da casa. Sua mãe bordando e cozinhando e o pai voltando da roça. Ele dançando na festa. O campeonato de motocicletas. O passado confundia-se com o presente. Ouvia pessoas falando ao longe. Ruídos dos equipamentos. O som dos monitores da UTI: um pi, pi, pi, pi de enlouquecer qualquer um. Não sentia cheiro. Ouvia pessoas gemendo. As conversas distantes dos profissionais e ruídos dos prontuários.
- Que dor no meu corpo. Que colchão duro. O peito não para de arder. Muito calor - seus pensamentos iam e viam. Não conseguia se mexer. Sentia a presença de alguém por perto, que falava com carinho. Seu corpo brigava com a febre e com os aparelhos.
Os dias se passaram. Longos quatorze dias, uma eternidade para os amigos e familiares de Rafael. Numa certa manhã, as dores sumiram, seus olhos se abriram e conseguiu ver um raio de sol que lutava em escapar por uma fresta na janela. Estava se sentindo bem.
O pior havia passado. Viu a satisfação, a recompensa e alegria dos médicos, que, mesmo alquebrados, aplaudiram a sua recuperação e alta. Dentre eles, reconheceu os olhos verdes, agora brilhantes e confiantes da amiga que o havia acompanhado.
Na saída do hospital, uma surpresa: um comboio de caminhões o aguardava e o “buzinasso”, que quebrou o silêncio fúnebre das ruas desertas e das paredes brancas do hospital. Em um dos caminhões, seu pai, orgulhoso e firme, protegido por uma máscara e o compartimento do carona separado por um plástico ou vidro, visão que se repetia em todos os caminhões. Ao tomarem conhecimento da doença do amigo, todos se mobilizaram e reivindicaram equipamentos de proteção para os caminhoneiros. Os empresários, sensibilizados com a história, passaram a produzir equipamentos de proteção e ventiladores no Brasil e passaram a ter supremacia e independência nesta área, dando condições para os profissionais trabalharem sem risco.
Paralelo a isto, a sociedade também havia se transformado. Redes de solidariedade haviam se formado. Jovens se colocavam como voluntários para ajudar no transporte de medicamentos e alimentos aos idosos, aproximando gerações. Correntes de orações entre amigos se formavam “online”. Familiares passaram a se aproximar mais e valorizar os momentos em família diante da eminência da morte. Pais mais ao lado dos filhos, valorizando o trabalho dos professores. Independente de ideologias, países passaram a se ajudar. Empresários subsidiaram a compra de equipamentos, o pagamento de profissionais de saúde, a educação em saúde e a compra de cestas básicas aos necessitados. Os trabalhadores e estudantes se reinventaram e buscaram outros caminhos para ativar seus empreendimentos e educação. Delivery, compra “online”, cooperativas, trabalho remoto, educação à distância e muito mais. O mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo.
Rafael subiu na boleia, buzinou para todos em agradecimento. Olhou para o céu, agradeceu a Deus a oportunidade de poder viver mais e ser melhor, agradeceu a todos os que cruzaram o seu caminho, seus amigos, os profissionais de saúde, sua família e namorada. Agradeceu à chance de cumprir seu papel de caminhoneiro, sendo parte do contingente para dar suporte à população no combate ao coronavírus e, no futuro, também ser mecânico em sua cidade. Além de tudo, agradeceu a oportunidade de recomeçar e poder compreender o verdadeiro sentido da felicidade.

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