Salto Quebrado - Bento Ribeiro B'Ro
Doze
vezes, leves prestações, um sacrifício válido para aquelas sandálias
Confortáveis,
coberta de brilhantes, qualquer pé que as calçasse, seria a visão mais bela da
avenida
Um
ano de condicionamento, para quatro dias de prazer, liberdade e devaneio... nem
comparados aos outros vinte seis dias das merecidas férias
O
salto a deixava mais alta, ou menos baixa, os centímetros a mais que sempre
quis ter
O
plano era sambar do pôr-do-sol ao amanhecer, e assim seria. Nem a meia noite,
nem o príncipe estragariam a festa da gata borralheira
Esquecer
por uns dias as privadas, a água sanitária e as vassouras... esquecer da
limpeza, queria sujar-se em sua bagunça
E
quando ouviu a bateria, todo aquele som, aquela vibração... as sandálias
sambavam sozinhas, parecia que Maria, nem precisava sambar, era como flutuar,
deslizar...
O
perfume lançado, camuflando o cheiro natural das coisas, a vida fantasiada para
o carnaval
A
maquiagem escondendo o cansaço e as marcas da vida, até conseguia sorrir
O
banho de suor, a purpurina e os confetes, misturando cores
No
auge, no topo, no êxtase, quando tudo parecia um sonho
Maria
sentiu um passo em falso, um tombo, copo e mãos na avenida
Ela
não conseguia acreditar, de quatro, como se fosse mais um chão pra limpar
Pensou
em chorar, sumir dali, se esconder até a quarta-feira de cinzas
Mas
sabia que sua dignidade ia além de sandálias caras, fantasia e maquiagem na
cara
Ela
não desceu do salto, levantou, sacudiu a poeira, ergueu a cabeça pra cima
Borrada,
fantasia suja e sem suas sandálias nos pés, ela seguia cantando e dançando
A
felicidade estampada no rosto, o orgulho no peito e vontade nos pés
Como
prometido pra si mesma, sambou até o sol raiar
Não
quis saber de ninguém, poderia parecer egoísta, mas hoje a festa era consigo
mesma
Cansou
de buscar, de mostrar, de querer ser pros outros
Renascer
das cinzas, como fênix, renascer uma Deusa, segura de si e consciente do seu
poder
Que
pra estar lá no alto, não precisa de salto
E
que sua beleza, é sua natureza
Se
enfeitar pra si, como um templo, um altar
A
festa de estar viva, dançando o som da vida

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