Porta-bandeira e mestre-sala - Maria de Fátima Mota Zampieri
- Não acredito, pensou Lara. Logo, no meu
primeiro dia de serviço, acontece isto. No dia da posse!!!
Na mesma hora um aglomerado de pessoas se
reuniu em seu entorno. Lá estava ela, na beira da calçada com o pé erguido e
morrendo de dor. Tentou mais uma vez encostar o pé, mas a dor era lancinante.
Teria quebrado o pé?
- Não é possível - murmurou. - Eu apenas
virei o pé. É isso que dá!!! Tentar fazer tudo correndo para poder trabalhar -
falou com seus botões. Ligou para o hospital, onde iria trabalhar, e comunicou
o ocorrido, informando que tomaria posse logo que se recuperasse. Tinha um prazo
para fazer isto.
Graças a Deus!! Naquele burburinho uma
senhora teve a iniciativa de ajudá-la.
- Espere. Estou com o carro aqui perto;
aí em frente do supermercado e te dou uma carona até o hospital. Moro lá perto.
E saiu na direção que apontara.
- Ainda dizem que não tem gente boa -
pensou Lara. Ficou ali sentada algum tempo e logo estacionou um carro branco.
Era ela, a senhora da carona. Um jovem que passava pelo local a ajudou a
levantar e a colocou no banco da frente do carro.
No hospital, não foi tão simples assim.
Lara foi atendida pelo SUS e teve que esperar quase duas horas. A emergência
estava cheia e tinha muita gente com problemas mais sérios que o dela. Contudo,
seu pé estava muito inchado e a dor já estava quase insuportável.
Apesar da demora, ela foi muito bem
atendida. Pasmem!!!
- Funcionários públicos - pensou. Não é como falam na mídia. Ela fez o RX e
depois foi para o consultório. Diagnóstico? Um rompimento de tendão e uma
pequena fratura no pé. Um mês sem tocar
o pé no chão, usando muleta, depois um mês com bota ortopédica ou tala e, a
seguir, fisioterapia. A enfermeira e a
técnica de enfermagem colocaram as bandagens e orientaram sobre os cuidados. O
médico prescreveu medicações e lembrou que ela teve sorte, pois se tivesse
movimentado o pé poderia ter que fazer cirurgia.
- Escapei da cirurgia. Ainda bem!! –
pensou com aflição. Imediatamente agendou a fisioterapia, pois tinha
conhecimento das imensas filas. Também ligou para a universidade, pois sabia
que tinha um serviço de fisioterapia gratuito ao lado da sala que fazia balé.
- Meu emprego!! - com cara de choro -
balbuciou Lara. Tinha que adiar este sonho no momento, mas o que mais a
preocupava eram os ensaios de porta-bandeira. Lara era filha de um dos
diretores de uma escola de samba e sempre teve o sonho de carregar o estandarte
da escola. Após o término do Carnaval, só deixava passar a Páscoa e já estava
lá no barracão para organizar o próximo Carnaval. Nasceu e cresceu na quadra e
amava sua Escola e o Carnaval. Era responsável por confeccionar as fantasias e
os adereços. Costurava como ninguém e também era bordadeira de lantejoulas. Nos
últimos meses de cada ano transitava por todas as salas e andares do barracão,
dando palpites, motivando a todos e ajudando no que podia.
- Como seria este ano? Quebrar o pé antes
mesmo da Páscoa. Não parava de pensar nisto.
Lara tinha sido porta-bandeira mirim em
dois carnavais e no ano anterior havia sido escolhida como segunda
porta-bandeira. Ela se sentia uma princesa, bailando na Avenida. Era uma mulata
linda, com pernas bem longas, magérrima e com cabelos longos, crespos e
sedosos. Tinha olhos negros, um sorriso aberto e sincero e era muito educada e
prestativa. Além de costureira, era fisioterapeuta e tinha passado no concurso
público. Iria iniciar suas atividades no
dia do acidente. O mestre-sala, seu companheiro, desde criança, mestre-sala
Xande era o seu maior incentivador. Ele era capoeirista, bonitão e com cara de
moleque e malandro, mas não era, não. Tinha se formado em direito e trabalhava
como assessor no tribunal de Justiça, onde começou a carreira como office boy. O dois ensaiavam três vezes
por semana. A proximidade deles era tanta, que esta linda amizade se
transformou em amor. Imaginem!! Ele de
terno. Nossa!! Tudo de bom!! Ambos estudaram em escolas e universidades públicas.
Tiveram professores que amavam o que faziam, que estudavam por conta própria e
faziam parcerias com os pais dos alunos da comunidade. Em que pese os
governantes criticarem esta categoria, tanto no nível básico, médio e superior
e colocarem os bons e os ruins, os conscientes e inconsequentes no mesmo
patamar, os dois acreditavam no funcionalismo público e no seu trabalho. Lara
tinha orgulho de ocupar uma vaga neste setor.
Não poderia começar a trabalhar fora
agora e seu sonho, de ser primeiro porta-bandeira, estava ameaçado. Será que
poderei dançar? - choramingou inconformada.
Os meses seguintes foram de
recuperação. No segundo mês após o
acidente, iniciou o trabalho como fisioterapeuta, fazendo apenas orientações
até a retirada da bota, quando passou a trabalhar nos dois turnos. Depois de
seis meses retornou ao balé e aos ensaios como porta-bandeira de forma
gradativa: exercícios para fortalecer a musculatura corporal, em especial das
pernas, dos pés e braços.
As atividades no barracão estavam a todo vapor.
Lara ainda sentia dores e não conseguia fazer os giros que costumava fazer.
Xande fazia de tudo para melhorar a autoestima dela, mas ela não acreditava
mais em seu potencial, estava com a sua autoconfiança abalada. Ao invés de se
concentrar na dança, preocupava-se com o pé.
No dia do concurso para escolha do
porta-bandeira, ela entrou com Xande e dançaram. Estava com um vestido
maravilhoso que ela mesma havia confeccionado, com tecido mais leve e com uma
estrutura pesquisada por ela para facilitar o movimento. Na apresentação,
conseguiram seguir as regras: manter o pavilhão tremulando sem tocar no mestre
ou nela, não enrolar a bandeira no mastro, manter-se ativa e sorridente, não
dar as costas para o companheiro, fazer os giros, mas faltavam o brilho interior,
a leveza e a segurança necessária a ela. Então, ficou como segunda
porta-bandeira novamente. Xande foi
escolhido para desfilar com a primeira porta-bandeira. Realmente ele tinha dado
tudo naquele dia: seu gingado, riscado e rabiscado. Hum!!! Tinha seu próprio
estilo e estava imbatível. A Capoeira ajudava com seus passos largos e meneios,
rodopiando em torno da porta-bandeira, protegendo o pavilhão e sua amada.
Conseguiu cortejar a dama com seu estilo clássico e jogo frenético das pernas,
bem como proteger a bandeira de sua agremiação carnavalesca.
Mesmo com muita tristeza, os dois
continuaram os ensaios na medida do possível, pois ele tinha que ensaiar com a
primeira porta-bandeira também. Ela persistiu com o seu treinamento, a
conscientização física e corporal e o balé, afinal, ia levar a segunda bandeira
e não poderia decepcionar sua comunidade. O que a deixava mais desanimada era
não poder bailar com seu companheiro de samba e de vida desde criança. Por
outro lado, estava orgulhosa por ele haver conquistado este lugar.
No dia do desfile, Lara foi para o
barracão bem cedo, ajudou as passistas a se arrumarem, finalizou alguns
adereços e depois preparou todo o seu traje, confeccionado com tecido leve e
com uma estrutura mais flexível, colocando-o sobre a cama e iniciou todo o
ritual de alongamentos e exercícios. Chegou duas horas antes do desfile,
conformada, mas com seu sonho de no próximo ano ser a primeira porta-bandeira.
Todos já estavam no aquecimento, se
posicionando em suas alas, quando um dos diretores a chamou para assumir o
lugar da primeira porta-bandeira, porque a escolhida no concurso havia
apresentado muitas tonturas em função de uma virose de verão e não poderia
representar a Escola.
Lara falou que não poderia assumir este
papel, pois estava despreparada e ainda estava se recuperando do acidente.
- Eu não posso - me desculpem, - falou Lara decidida.
Xande fitou os olhos dela e disse:
– Você consegue, eu estou aqui para te
proteger e para proteger nossa amada escola. Olhe para mim e dance como sempre
fizemos. Você está linda. Eu te amo.
Xande colocou o adorno de cabeça na
cabeça dela, com penas longas multicoloridas de pavões, gansos e faisões e com
plumas de cisne com as cores da escola, seguindo a temática do enredo
apresentado.
Os fogos já anunciavam a entrada da
escola. Ela empunhou a bandeira e levou ao presidente que beijou o pavilhão e
se curvou diante da bandeira, apresentando o casal à comunidade, que gritava o
nome da escola.
Ao verem Lara e Xande, em uníssono, todos
os dirigentes e amigos gritaram. “Avante, meus meninos. Lara e Xande, defendam
a nossa escola, o nosso pavilhão e a nossa comunidade! Estamos com vocês!”.
Todos começaram a cantar o enredo,
seguindo o puxador. A bateria estremeceu a avenida, conduzida com toda a cadência
por Tais, a primeira mulher nesta função.
Lara começou a flutuar na Avenida,
bailava como se fosse um passarinho, girando com leveza e beleza em torno de
seu próprio corpo e suas saias voavam leves, impulsionadas pela música. Xande
não tirava os olhos dela, cortejando-a com todo o seu amor. A bandeira de seda
tremulava ao vento altiva e brilhante, representando as 3000 pessoas da
entidade carnavalesca. O sorriso de Lara contagiava a todos e se alternava com
o canto do enredo, que entoava com toda a sua alma. Xande não se continha de
felicidade e imprimiu seu estilo, juntando passos clássicos e os da capoeira
para defender a bandeira e sua amada. Os penachos azul, branco e rosa pareciam
ter sido feitos para Lara e contrastavam com seus olhos negros que se
destacavam entre os cachos de cabelo compridos que se perdiam no seu ombro.
A arquibancada foi ao delírio e quando
passaram pelos jurados, os dois pareciam flutuar na avenida, como se só eles
ali estivessem. Ao saírem, cumprimentaram sorridentes os jurados e todos os
expectadores.
A bateria recuou, dando mais espaço ao
casal, que desfilava em completa conexão com o ritmo, com o som e com a canção.
A passarela foi curta para os dois e logo haviam cruzado a avenida e chegavam à
dispersão.
Estavam radiantes de felicidade. Os mais
amigos se aproximaram do casal para parabenizar e neste momento Xande se
ajoelhou em frente de Lara, e a pediu em casamento, dando a ela um lindo anel.
Lara olhava para ele, com lágrimas escorrendo pelo rosto e um sorriso que o abraçava
com carinho, e correu para os seus braços. Agora podia tocá-lo. Todos
aplaudiram o casal, e eles se beijaram
- Conseguimos!!! É muita felicidade.
Somos o primeiro casal de porta-bandeira e ainda vamos nos casar. Ainda não
caiu a ficha.
Esta cena poderia finalizar esta história
com a frase e viveram felizes para sempre, mas não termina aqui. O carnaval não
finaliza com o desfile da porta-bandeira e do mestre-sala. Todos tinham que
cantar, impulsionar e aguardar todas as alas passarem. Fazer a arquibancada ir
ao desvario com enredo, as passistas, as baianas e a bateria. Receber a
diretoria, a velha guarda, os pais de Lara faziam parte desta ala, e os
diretores da nova geração.
Sim, todos passaram no tempo estabelecido
e o povo foi ao delírio. Cravados 65 minutos. No dia seguinte, lá estavam
todos, aguardando a contagem dos pontos e vibravam a cada quesito. A diferença
era mínima entre as participantes, faltando como quesitos finais a bateria, as
porta-bandeiras e os mestre-salas.
Meus Deus, empate!!! As duas escolas
tiraram nota máxima na bateria. Lara e Xande estavam nervosos, mas confiantes,
porque sabiam que tinham feito a sua melhor performance.
Quando os jurados anunciaram 10 para o
casal de porta-bandeira da “ Unidos da Estrela”, todos gritaram e os dois
caíram no choro. Lara não se continha de felicidade e teve a certeza de que
acreditar em si e naquele que a ama, ter garra e ter a confiança de todos para
lutar por sua escola foram os motivos primordiais para superar todas as
dificuldades e para ela agora comemorar o título de campeã com aquelas três mil
pessoas. Assim é no Carnaval e assim é na vida - refletiu.
O barracão era só alegria, folia,
gratidão, uma comunidade unida na terra e nas estrelas. Os dois viveram muito felizes e a cada
carnaval comemoram mais um ano de vida conjugal e familiar, na avenida,
defendendo sua escola e seu pavilhão.

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