Para escrever uma história, ou A jornada pela fantasia perfeita – Samara Hartt

Para escrever uma história, é muito simples. Primeiro, precisamos de um título. Esta eu chamei de “A jornada pela fantasia perfeita”. Um título elegante, eu diria. Chama atenção. Agora, só precisamos seguir 12 passos. Obrigada, Joseph Campbell e Christopher Vogler!

1. O mundo comum
Apresentamos o protagonista. Este é Pedro, o nosso herói. Ele só tem dez reais no bolso. O carnaval caiu no fim do mês e o salário de Pedro já tinha ido pelo ralo abaixo faz tempo. Ficar em casa, pedir um podrão barato e maratonar séries era o plano para o feriado.

2. O chamado à aventura
Henrique, melhor amigo de Pedro, manda uma mensagem dizendo que tem uma festa a fantasia na casa da Bruna. A festa é de graça, não tem desculpa. Só que ir fantasiado é obrigatório, e a Bruna é muito chata com as regras das suas festas. Que horas é a festa?, pergunta Pedro a Henrique, tentando botar a preguiça de sair de casa de lado. Daqui a duas horas, responde o amigo.

3. Recusa ao chamado
Vixe, nem tenho fantasia! Não vou não..., Pedro recusa o convite à festa, preocupado que não conseguiria arranjar uma fantasia em menos de duas horas e só com dez reais. Bota qualquer coisa, cara!, responde Henrique. Pedro sempre tinha preguiça de ir às festas, mas chegando lá, era o mais alegre de todos, pensou Henrique.

4. Encontro com o mentor
Pedro pesquisa no google: “fantasia de carnaval com menos de R$10”. Encontra um vídeo: “DIY: dicas para fazer sua fantasia de carnaval gastando pouco”, de uma tal de Ana Dunga. Ana Dunga vai ser a mentora virtual de Pedro.

5. A travessia do primeiro limiar
Dica número 1, disse a Ana: procurar em casa peças de roupa que podem ser usadas. Procura, procura, procura... nada. O Pedro é o típico cara que só usa calça jeans e camiseta, e qualquer peça do seu guarda-roupa tem cara de um dia normal.
Dica número 2: se não tiver nada em casa, procurar roupas em um brechó. E eis que começa a nossa aventura de fato, pois Pedro, muito relutante em sair de casa no início da história, já está encarando a rua e indo ao brechó da igreja do bairro.

6. Provas, aliados e inimigos
No brechó, Pedro encontra uma calça de pele artificial marrom e já se imagina como um Wookie exemplar. Só falta um casaco, uma maquiagem no rosto e ele vai ser, se não o único, o Chewbacca mais estiloso da festa. E o que é melhor: a calça só custa três reais. O QUÊ? Três reais? Isso, mesmo, trêix reaix. Isso que acabo de fazer se chama referência. Muito usada na literatura.
Então Pedro passa mais um tempo procurando um casaco pra combinar com a calça. Até que, olhando para a parede do outro lado do brechó, ele o avista: marrom e peludo, como o alienígena mais querido das galáxias. Porém, na porta de entrada do brechó, muito mais perto de onde está a almejada peça, aparece um outro rapaz, vestindo uma calça peluda e uma máscara de papelão com o rosto de Wookie. O rapaz pergunta para a funcionária se tem um casaco de pele e a funcionária aponta para a direção para onde Pedro está correndo neste momento. O Wookie concorrente olha do casaco para Pedro e corre na mesma direção. Os dois chegam juntos. Agarram a peça. Puxam. E o casaco se rasga.

7. Aproximação da caverna secreta
O outro rapaz logo larga a peça e vai procurar algo melhor em outro brechó. Oh, o que Pedro vai fazer agora? Já se passaram quarenta minutos e ele só tem uma ideia, uma calça e sete reais. A funcionária vê o desapontamento nos olhos do nosso herói e informa que na sala ao lado tem algumas máquinas de costura que as voluntárias da igreja usam pra consertar as roupas que são doadas. Ela diz que não tem ninguém lá pra ajudar, já que é véspera de feriado, mas que se ele quiser, pode usar uma máquina. Pedro aceita sem pensar, mas, chegando à sala, ele olha as máquinas e começa a duvidar de suas capacidades: será que ele tem habilidades suficientes para enfrentar aquele desafio?

8. A provação
Pedro respira fundo e procura, entre os vídeos de Ana Dunga, algum que o ensinasse a costurar. Ana não decepciona: tem um vídeo de passo a passo de como costurar, desde como colocar as linhas na máquina até o nó do arremate final. O trabalho é árduo. Pedro demora para sincronizar o ritmo do pé no pedal e das mãos no tecido e alguns metros de linha são desperdiçados junto com preciosos vinte minutos, mas Pedro finalmente consegue derrotar suas dificuldades e compra o casaco por um preço ainda menor do que estava antes, já que havia rasgado tão facilmente.

9. A recompensa
Pedro olha o seu novo conjunto de calça e casaco com orgulho. Além de ter conseguido a melhor fantasia com menos de dez reais, ele ainda aprendeu uma nova habilidade.

10. O caminho de volta.
Nosso herói passa em uma loja e, com os dois reais restantes, compra uma tinta guache marrom para fazer a maquiagem. Volta para casa andando tranquilamente, pensando que está com tempo de sobra para se arrumar para a festa. Se anima pela agitação que está por vir.

11. A ressurreição
Mas eis que, depois do banho, mais um impedimento surge: Pedro percebe que a maquiagem Wookie é muito mais difícil do que parecia, e usar uma tinta guache foi a pior escolha que fez. Ele parecia mais um cosplay de cocô de Wookie feito por uma pessoa de olhos fechados e nenhuma noção de espaço. Sem a maquiagem, tudo estava arruinado. Ele não seria mais o Chewie, mas uma senhora com roupas de inverno e cheiro de brechó.
Então Pedro se lembra das palavras encorajadoras de Ana Dunga no primeiro vídeo que viu: “Tudo é possível com criatividade e determinação.” Nosso herói, fortalecido pela lembrança, lava o rosto e inicia a maquiagem novamente, agora com mais paciência e secando a tinta recém pintada com um secador de cabelo antes de introduzir uma nova camada. Agora sim.

12. O retorno com o elixir
Faltando dez minutos para a festa, Henrique chega, sem que eles tenham combinado, vestido de Han Solo e com uma Millennium Falcon de papelão que pendurava ao redor da cintura. Os dois amigos riem da coincidência e vão juntos para a festa. Todos os amigos da faculdade reunidos, aquilo era raro de acontecer. Que bom que Pedro foi à festa, afinal. Foi a melhor festa de todas.

E assim terminamos a nossa história.

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