A Busca (parte 2) - Danilo Mello
Deixou para trás cinza e pó, restos
mortais de mulher e filho que jamais tivera; entretanto, as lembranças
continuariam com ele, atormentando-o, em sua jornada deserto adentro. Levava dela
apenas um fêmur que resistira ao tempo, e com o qual poderia fazer uma boa faca
caso sobrevivesse.
O fim do segundo dia se aproximava, e ele
procurou por uma duna adequada para se esconder, uma que resistisse ao vento da
noite e não desmoronasse sobre os seus sonhos. Improvisou uma tenda em sua base
com um manto, prendendo-o com o fêmur, e do alto observou o sol se pôr e as
sombras afogarem o deserto. Olhando para trás já não conseguia ver as luzes da
vila, luzes que ela nunca viu. Nada, em nenhuma direção. Abanou a cabeça e
desceu para o precário abrigo, e observou a lança no céu indicando a direção
que seguia: sul. O segundo cantil pingou suas últimas gotas nos lábios
rachados, e a lembrança do poço da vila deixou um gosto amargo na sua boca. A
lua subia, e a temperatura se aproximava do zero. Enrodilhou-se em mantos
dentro da tenda, tentando se esquecer, mas quanto mais o calor lhe abandonava o
corpo, mais as memórias se revoltavam. O melhor seria se entregar, se esconder
no mais profundo de si. A perspectiva de não acordar na manhã seguinte o
reconfortou enquanto entrava num semi-estado entre vida e sono.
Sentia inundar-se, como se se afogasse no
oceano de areia ao seu redor, nadando sem rumo, sem fim. Os batuques ecoavam
pelas ruas, e uma criança fantasiada de caveira tentou assustá-lo, mas quando ele
deu um passo manco em sua direção ela o reconheceu como sendo o Sábio e saiu
correndo com medo. Ele observou a criança se perder em meio à multidão
fantasiada em comemoração à fertilidade, de onde haveria de nascer as próximas
gerações. Ela também estava presente, trajada de caçadora, e a lança era sua
guia, tateando o caminho à frente. Ele a seguiu curioso em meio às pessoas que
abriam passagem para ela, e que somente ao notarem ele mancando também se
esquivavam dele; não o faziam por educação ou respeito as suas posições na vila,
mas os evitavam por medo de serem contaminados pelas suas deficiências, o que
comprometeria seus filhos ainda não gerados. Ele a seguiu pelas ruas, a
multidão tornando-se escassa enquanto se afastavam do festival, até restarem
apenas os dois sozinhos na escuridão. Ele só percebeu onde estavam indo quando
ela virou numa viela. No fim da rua, a praça sagrada.
Ela parou ao lado do poço e aguardou. O
batuque continuava, distante, um leve ruído que se infiltrava pelas ruas até
eles. Ela disse que sabia que ele a estava seguindo, o seu caminhar, meio
rastejante, meio enviesado, tinha um som único. Ela cantou para ele, e por um
breve momento ele achou que ela poderia enxergá-lo, e que ele poderia falar-lhe.
No entanto, o olhar dela continuou opaco, assim como ele com sua voz ausente.
Ele a segurou pelos ombros e a beijou. Ela balançou a cabeça, negando, e o
abraçou. Ele a apertou contra si. Ela se afastou, mas ele a beijou de novo. Ela
resistiu, tentou apartar-se, mas ele a segurou contra si. Ela tentou golpeá-lo
com a lança, mas ele a desarmou e a jogou longe, a ela e a lança. Ela gritou,
sabendo que era em vão — mesmo que alguém estivesse por perto, que os visse,
não interferiria para não comprometer sua própria saúde e essência, além de
que, nos tempos de festival, tudo era... muita coisa era permitida naqueles
tempos, muitas coisas eram ignoradas. Ele a tomou ali, de costas contra as
pedras frias, e aquela voz de música era som e fúria.
Ele acordou, sem conseguir abrir os olhos
úmidos congelados. Tremia, não do frio, ao lembrar de que a possuiu sem
consentimento. Lembra de deixá-la imóvel, ao lado do poço, e três meses depois
convencer os sacerdotes a não jogá-la no mar, mas a mandarem para o deserto.
Foram precisos, o quê, dez anos, até entender a culpa, os erros, a condescendência
daquela sociedade; não havia tormento, tortura, pena autoinfligida, nada, nem toda
compreensão, apagaria aquele momento de sua mente; nem mesmo a própria morte.
Ele se forçou abrir os olhos até quase rasgar as pálpebras, e o fato de estar
vivo o consternou. Até quando.
O sol subia no horizonte, preparando mais
um dia de tortura, e o calor lentamente trazia um conforto que ele não queria,
distanciando-o das memórias da noite. Aos poucos, tudo se anuviava. O terceiro
e último cantil o levaria até o fim do dia, depois... Água, com a qual um dia o
homem já se banhou, ou até mesmo cagou nela, dizem as lendas, embora isso seja
difícil de conceber. Poderia ser água salgada, nada impediria isso, que
cagassem em água salgada. Precisaria encontrar água até o fim do dia.
Recolheu os pertences e segurou o que
restava do fêmur em suas mãos. Enquanto a afastavam do penhasco ela virou a
cabeça em sua direção, como se soubesse que ele estava ali. Em seus olhos não o
ódio, mas serenidade, que ele tomou como uma espécie de absolvição. Agora sabe
que era indiferença, pena do que ele tinha feito. Não, não do que ele tinha
feito, mas da pessoa que ele havia se tornado. Como ela não sentia repulsa por
ele?
Com o osso na mão subiu ao topo da duna e
olhou para o sul. Será que o perdoaria?, sabendo de tudo o que havia ocorrido,
as mudanças que havia introduzido na história, nas memórias da vila. Nada
daquilo fazia mais sentido, nem rituais, nem festivais, eram ideias subvertidas
para novos fins, esvaziadas de qualquer significado que possam ter tido algum
dia. Antigas sabedorias perdidas para sempre, corrompidas, transformadas,
profanadas. Ela acreditara; ele acreditara; eles ainda acreditam. Olhou uma
última vez o osso. Não, não o perdoaria; ele foi por muito tempo cúmplice de
tudo aquilo.
Caminhou pela crista da
duna, e sem pressa, a cada passo, deixou o osso deslizar pela mão, pelos dedos,
e se perder nas areias do tempo. Deixou para trás cinza e pó, mas as
lembranças...
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