Os sapos do serão - Josi Egger

Um certo dia,
quando a claridade ainda insistia
em iluminar a escuridão,
espantar a noite que queria chegar,
noite quente e fria de verão
Em um banhado no serrado
em meio a caatinga do sertão
dois sapos a coaxar
O Gordo e o Magro começam a dialogar:
"Hei Magro? Se não parares de coaxar feito um desesperado
vais sumir, fi car só olho na cara
Precisas comer seu magrelo, raquítico, anoréxico"
"Oi? Quê? Ói iÓ seu Gordo faminto, tudo que fazes é comer, nada de coaxar,
come feito um boi, seu sapo
tais que é o rei momo do banhado
Não tá pegando nada, só come, dorme e arrota"
O magro larga aquela gargalhada e o Gordo responde:
"Que nada, vara pau só perna
tô só guardando energia para a hora da paquera"
O Magro olha bem mal para o Gordo e diz:
"Ta vendo aquela Ruivinha Mudinha lá no alto da pedra?
Tô de olho nela, tá com uma amiga, mais muda ainda
Se tu parasse de comer e começasse a coaxar, para atraí-las, e espantar os outros
machos, talvez começássemos a namorar. Seu gordo afasta-fêmea
Se não coaxar não vou conseguir nem a Mudinha Ruivinha que estou de olho,
muito menos espantar aqueles loucos, estou sozinho nessa seu saco de banha?"
"Não está não seu pau de vira tripa reclamão, tô gordão mais ainda do para
coaxar, seu Magro mandão"
Magro cai na gargalhada e diz:
"Taís virando a casaca, dando para coaxar maluco?"
E os dois em gargalhadas
começam coaxar desesperadamente
Logo as fêmeas mudinhas, começam a chegar
Para a reprodução, um coaxar sedutor atrai as mocinhas,
outro coaxar espanta o espertalhão que quer chegar na sapinha
No banhadão,
seco nordestão,
parecia uma canção:
era coaxé pra lá, coaxé pra cá
até que as mocinhas chegam se beijando
O Magro e o Gordo se olham
Sem acreditar no que estão olhando
entram com emoção
Ficaram os quatro juntos
pois no mundo dos sapos do sertão
não existe lugar para Preconceito e discriminação.


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