A transparência - Samara Hartt
Marta limpava novamente o vidro da janela. A transparência do material era tanta que às vezes ela esquecia o limite que dividia o interior e o exterior. Era assim que desejava.
Lembrava-se bem da sua fi lha pequena embaçando aquela superfície com o hálito e fazendo desenhos com o dedo. Uma fl or. Uma árvore. Uma mãe com uma filha. Era o passatempo de dias em que ela era proibida de brincar lá fora. Iria se assustar com os gritos da casa ao lado. Era melhor que não saísse.
A filha compreendeu os limites quando se tornou adulta. Seus olhos castanhos às vezes transpareciam compaixão, às vezes repulsa. Não entendia porque a mãe continuava a morar ali, ao lado dos gritos ocasionais da mulher perturbada.
A filha não sabia, nunca soube que aquela proximidade lhe era necessária. Somente ali Marta se sentia sã. Longe das normalidades e próxima da loucura. Longe das máscaras tortas e do piche fresco.
Já era sua rotina observar aquela mulher daquela distância-proximidade enquanto limpava a janela. Ela tinha a sua idade. Houve um tempo em que conversavam e eram felizes, mas a vizinha já não se lembrava do tempo. Décadas se passaram. Era melhor assim, Marta repetia para si mesma. Esquecer-se dela signifi cava enterrar a dor anterior e a posterior à primavera que viveram. A troca da cor pelos tons de cinza era também a negação das sombras que a atormentavam quando ela gritava.
Sempre que Marta escutava seus gritos, vinha-lhe a doce pergunta, Será que ela se lembrou de mim?, juntamente com a amarga certeza, Ela se lembrou dele. Quando a sua fi lha partiu, Marta se permitiu, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentir aqueles gritos inteiramente. Chorou junto dela.
Não estava mais ali o ser sob sua proteção para o qual ela precisava aparentar uma fortaleza. Todos queremos parecer fortalezas, principalmente as mães, dizia a vizinha. Sãos são aqueles que não escondem seus desequilíbrios. Marta se lembrava.
Às vezes, com esperança, Marta levava fl ores à casa da vizinha e as deixava na frente da porta que agora enxergava através do vidro. Marta queria lembrá-la da felicidade. Muitas vezes a vizinha ignorava. Tornara-se impermeável à delicadeza, pois quem não vê cores, não haveria de ver fl ores; e então Marta resignava-se, É melhor assim.
Na maioria dos dias, entretanto, Marta se contentava com o seu ritual matutino de manter a transparência do vidro ao mesmo tempo que observava a vizinha e se lembrava por ela. Nesses dias, a vida era quase normal.
A estranha conhecida passou pela própria janela. Janela esta sempre embaçada, empoeirada, opaca. Voltou alguns passos e deteve-se ali, olhando através das opacidades que se fi ngiam transparentes. Passou a mão pela poeira e olhou. Por alguns segundos ela viu Marta através dos dois vidros opostos.
Lembrava-se bem da sua fi lha pequena embaçando aquela superfície com o hálito e fazendo desenhos com o dedo. Uma fl or. Uma árvore. Uma mãe com uma filha. Era o passatempo de dias em que ela era proibida de brincar lá fora. Iria se assustar com os gritos da casa ao lado. Era melhor que não saísse.
A filha compreendeu os limites quando se tornou adulta. Seus olhos castanhos às vezes transpareciam compaixão, às vezes repulsa. Não entendia porque a mãe continuava a morar ali, ao lado dos gritos ocasionais da mulher perturbada.
A filha não sabia, nunca soube que aquela proximidade lhe era necessária. Somente ali Marta se sentia sã. Longe das normalidades e próxima da loucura. Longe das máscaras tortas e do piche fresco.
Já era sua rotina observar aquela mulher daquela distância-proximidade enquanto limpava a janela. Ela tinha a sua idade. Houve um tempo em que conversavam e eram felizes, mas a vizinha já não se lembrava do tempo. Décadas se passaram. Era melhor assim, Marta repetia para si mesma. Esquecer-se dela signifi cava enterrar a dor anterior e a posterior à primavera que viveram. A troca da cor pelos tons de cinza era também a negação das sombras que a atormentavam quando ela gritava.
Sempre que Marta escutava seus gritos, vinha-lhe a doce pergunta, Será que ela se lembrou de mim?, juntamente com a amarga certeza, Ela se lembrou dele. Quando a sua fi lha partiu, Marta se permitiu, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentir aqueles gritos inteiramente. Chorou junto dela.
Não estava mais ali o ser sob sua proteção para o qual ela precisava aparentar uma fortaleza. Todos queremos parecer fortalezas, principalmente as mães, dizia a vizinha. Sãos são aqueles que não escondem seus desequilíbrios. Marta se lembrava.
Às vezes, com esperança, Marta levava fl ores à casa da vizinha e as deixava na frente da porta que agora enxergava através do vidro. Marta queria lembrá-la da felicidade. Muitas vezes a vizinha ignorava. Tornara-se impermeável à delicadeza, pois quem não vê cores, não haveria de ver fl ores; e então Marta resignava-se, É melhor assim.
Na maioria dos dias, entretanto, Marta se contentava com o seu ritual matutino de manter a transparência do vidro ao mesmo tempo que observava a vizinha e se lembrava por ela. Nesses dias, a vida era quase normal.
A estranha conhecida passou pela própria janela. Janela esta sempre embaçada, empoeirada, opaca. Voltou alguns passos e deteve-se ali, olhando através das opacidades que se fi ngiam transparentes. Passou a mão pela poeira e olhou. Por alguns segundos ela viu Marta através dos dois vidros opostos.

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