A OPACIDADE - SAMARA HARTT




Da janela embaçada escorriam pequenas gotas de água. Traçavam linhas
transparentes que rapidamente eram invisibilizadas pelo ar interno que se
espalhava. Ela não via nada daquilo. Rabiscava incessantemente uma folha de
papel com um resto de carvão que tirara da gaveta. As sombras não se revelavam.
Havia alguma coisa ali, ela sentia. Nos dedos o toque áspero que fazia da pele a
sua tela e encobria veias, linhas, toques de outros tempos.


A imagem no papel seria uma imagem nova? Quando ele abriu a porta e
impôs sua presença naquele espaço que era dela, o cheiro azedo. Este lhe restara,
mas o cheiro não podia ser riscado. Coçou o nariz e o manchou de preto como
a outras partes do seu corpo e do seu quarto quando aquela procura a dominava.
Novamente desistira de pintar as paredes. A tinta branca era agora o fundo de
fumaças que pareciam se movimentar. O branco dizia que se a violência tivesse
acontecido, já teria sido revelada. As manchas insistiam em sussurrar.


De tanto passar as mãos sujas na parede, formou a imagem de um
grande iceberg esfumaçado. Disseram-lhe ou ela lera num livro que cada ser
humano tinha um iceberg próprio. O oceano que encobria a imagem da parede
se transbordava para os lençóis da cama encostada abaixo onde os suores
provocavam retornos cegos. Ela havia sido amada. As cores eram tantas naquele
tempo, e nenhuma delas podia ser transcrita na dualidade do preto e branco do
papel. No seu corpo só lhe sobraram as cores e as umidades que se encontraram
como dois oceanos distintos. Nada mais. Já era difícil dizer se aquela felicidade
tinha sido fuga, sonho ou passado.


O branco das paredes a cegava. Trazia um gosto amargo na garganta e
uma luz constante de corredores vazios. As paredes brancas tentavam calar
os gritos dos quartos ao lado. Ela não pertencia àquele lugar, onde trocaram
seus remédios por outros mais amargos. Naquele tempo de sono e solidão ela
aprendeu a pintar. Isso fi cara em suas mãos. A arte é uma fuga para as suas
perturbações, disse aquela gentil moça de avental branco. Mas para ela a arte era
tudo menos fuga. Era a procura, a revelação... do quê? Tiraram-lhe a arte e lhe
deram mais remédios. Ela voltara a gritar.


Resignou-se. Você pode sair, disse a moça gentil, mas não deixe de tomar
os remédios e fi que longe da arte. Venha me ver uma vez por mês.
Quanto tempo havia se passado? Quantos remédios já havia tomado?
Quantas cores ela deixara de enxergar? Agora só produzia imagens cinzentas,
buscando um passado submerso que sentia, mas não enxergava. O cheiro azedo
do corpo alheio. O toque amoroso dos corpos iguais. Os gritos angustiados dos
quartos ao lado. O gosto amargo dos remédios. Nada daquilo parecia real, e,
ainda assim, nada parecia inventado.


A figura do papel tomou forma e a assustou. Jogou o caderno longe,
escondeu o carvão na gaveta. Tomou o remédio de cabeceira e foi comprar tintas
brancas.

Comentários