A BUSCA (Parte 1) - Danilo Mello

Sozinho, o velho claudicava deserto adentro. Vestia preto, como um nômade; não por escolha própria — se pudesse teria escolhido qualquer outra cor que o diferenciasse de seu povo, mas não existiam outras cores, apenas sua ausência. Não existiam mais muitas coisas naqueles dias, a matéria decomposta em poeira contaminava, os saberes deteriorados em rumores contaminavam, a história corrompida em mitos, acima de tudo, contaminava.

Deixar o pouco que restava para trás não era mais coragem do que pura necessidade de sobrevivência, não apenas de si mesmo, como também de seu povo. Ali as regras eram não muito distantes das do senso comum: os mais idosos deles já teriam vivido o suficiente para ter experienciado todas as coisas da vida, aprendido sobre os assuntos da terra e da lua, da matéria e da memória, dos prazeres carnais e espirituais, das dores e felicidades, e por tudo isso eram adorados. Sábios, que ao final de suas vidas eram incumbidos de uma última jornada, a última promessa de esperança: A Busca. Aquilo era um ritual, a tradição que guiava o seu povo para o futuro, e o temor que o passado os alcançasse e os esmagasse sob sua avalanche de acontecimentos evitava qualquer tentativa de subverter a história. E assim continuaria sendo.
 

O deserto era indizivelmente infinito, e jamais conseguiria chegar a lugar algum no que lhe restava de vida. Ele sabia disso, e os antes dele também sabiam, e os anteriores, e os anteriores... Agora, o que poderia fazer era se esforçar e talvez chegar a algum lugar, obter alguma resposta, não para o seu povo, ou para o futuro da humanidade, mas para si mesmo, do porquê de tudo aquilo acontecer. E assim ele claudicava, como os antes dele. Sábios deformados.

Ao nascer, identificada qualquer anormalidade, o bebê (não que humanizassem aquilo a esse ponto) era lançado ao mar do penhasco. Era um balanço tênue entre o que o grupo poderia prover e o que o indivíduo teria a dar. Ainda assim, a mesma mãe que lançava aquilo num dia, caminhava no dia seguinte à procura do corpo. E às vezes, impossivelmente, sobreviviam. Estes eram idolatrados. Comida, roupa, moradia, luxúrias não faltavam. Cresciam com saúde, no entanto, sem qualquer tipo de instrução. Eram a conexão necessária entre o mundo dos homens e aqueloutro, receptáculos vazios, desprovidos de qualquer ciência do que ocorria. Cegos que não viram o sol nascer; surdos que jamais ouviram o vento; paralíticos que nunca rastejaram além dos muros da cidade.
 

Ao nascer ele não chorou. Sua mãe o lançou conforme a lei, segurou-o pelo calcanhar, girou-o três vezes no ar, rompendo todos os tendões daquela perna, e deixou ele ir. Ela sequer olhou aquilo chegar lá embaixo; era o seu último, estava cansada e não conseguiria fazer outro por causa da idade — foi o seu primeiro. Ao encontrá-lo no dia seguinte, ela não chorou.

Ele conviveu com uma mulher cinco anos mais velha. Ela jamais viu o que ele viu, e de certa forma ele agradeceu por poder enxergar, mas jamais cantou como ela cantou. Certo dia acordou ao som de gritos, e descobriu os sacerdotes arrastando-a até o penhasco. Ela havia corrompido a ordem, e todo o povoado estava ameaçado caso não fosse purifi cada, disseram. A maresia à beira do penhasco a inebriava, o som das ondas a violava de antemão. Ele ordenou que a soltassem, e com as mãos explicou, afinal eram respeitados por algum motivo. Ao término do discurso silencioso, os sacerdotes estavam atordoados, seguiram o conhecimento do sábio e mandaram a mulher para o deserto.


Viveu calado, sem compreender as razões daquilo tudo. Apenas viveu, pois não sabia morrer. Fazia seu papel de ícone, símbolo, mártir, levava esperança e felicidade, e à noite era torturado por uma angústia que lhe sufocava até os ossos. Durante muito tempo viveu sozinho, pensou ser o último, e aquilo exigia ainda mais dele e de suas habilidades inexistentes. Queria ser o último, nesse caso, talvez, não fosse preciso realizar A Busca. Foram necessários trinta anos até outro sobreviver. Outro cego. Agora era a sua vez.


Ensinou o que era preciso, que as verdades ali eram bastante maleáveis. No dia em que salvou a cega ele criou um passado no qual fosse possível salvar o presente, e talvez fosse esse o objetivo deles todo esse tempo. Quantos já haviam feito o mesmo, desvirtuado a realidade para atender suas necessidades — como se tudo aquilo não fosse uma grande corruptela da verdade. Ensinou ao cego o que considerava ser certo, e que, mesmo assim, às vezes, ele deveria ceder e fazer o mando dos sacerdotes — uma mudança drástica seria catastrófica. Os anos passaram e o seu dia chegou.


Caminhava há apenas dois dias no deserto quando encontrou os ossos de um ser humano dentro dos ossos de um ser humano. Soube, anos depois, que o motivo da cega ter sido “purificada” era estar grávida. Dois dias, foi o quanto ela sobreviveu. Talvez o penhasco tivesse sido mais misericordioso. Não soube que a havia estuprado até ser tarde demais, velho demais, culpado demais. “Era normal” não era desculpa. Ele jamais falou; agora, sozinho no deserto, poderia gritar se quisesse. Tocou os ossos, que se desmancharam no ar, impregnando sua pele. Talvez ele conseguisse chegar um pouco mais longe, talvez tivesse mais sorte. Talvez cego tivesse julgado melhor, mas a sua punição seria ver o fim, jamais esqueceria tais imagens. O fim pode estar perto, recomeçou a andar; se ao menos sua perna ajudasse. Sozinho, o velho claudicava deserto adentro.


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